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O coração como objeto interno: uma leitura kleiniana de produções gráficas infantis

    Desenho de Cecília com um coração trincado e rostos ao redor

    Aglaé Santana de Oliveira
    Psicanalista Freudiana | Licenciada em Ciências Biológicas

    A partir do material apresentado, a hipótese clínica não se dirige prioritariamente aos desenhos em si, mas às fantasias inconscientes que parecem encontrar neles uma forma de expressão simbólica. Como assinala Melanie Klein em A Psicanálise de Crianças, o desenho, assim como o brincar, constitui uma via de acesso privilegiada ao mundo interno infantil. Nessas produções, a criança não apenas representa acontecimentos da realidade externa, mas também expressa desejos, angústias, conflitos e modos particulares de se relacionar com os objetos internos e externos. Assim, o valor clínico do desenho não reside em uma interpretação isolada de seus elementos visuais, mas na possibilidade de compreender, em conjunto com as associações da criança e o contexto transferencial, aspectos de sua vida psíquica que ainda não encontram representação plena pela linguagem verbal. Dessa forma, os desenhos podem ser entendidos como manifestações simbólicas que permitem aproximar-se das dinâmicas inconscientes em operação naquele momento do desenvolvimento emocional.

    O aspecto mais significativo do material é a centralidade do coração como organizador das cenas. É uma possível representação do objeto amado e da relação estabelecida com esse objeto. Em todos os desenhos, o vínculo com a mãe aparece ocupando posição predominante, sugerindo forte investimento libidinal sobre esse objeto. A repetição desse elemento ao longo das produções sugere que a relação materna ocupa lugar central na economia psíquica da criança, funcionando como referência importante para suas experiências emocionais. Sob uma perspectiva kleiniana, tal recorrência pode expressar além de sentimentos de amor e proximidade, também a intensidade das fantasias ligadas à preservação, à dependência e ao medo de perda do objeto amado. Assim, mais do que um detalhe gráfico, o coração parece condensar aspectos relevantes da vida afetiva da criança e da forma como ela organiza simbolicamente seus vínculos.

    Figura 1 – Desenho produzido por Cecília

    Desenho de Cecília com um coração trincado e rostos ao redor

    (imagem do coração com os rostos ao redor)

    O coração trincado pode ser compreendido como expressão de uma fantasia de dano ao objeto amado. Klein descreve que, ao ingressar na posição depressiva, a criança passa a perceber que o objeto amado e o objeto odiado são um mesmo objeto. Surge então a preocupação de que seus impulsos agressivos tenham causado prejuízo ao objeto interno. A angústia predominante deixa de ser apenas persecutória e passa a envolver culpa e medo da perda.

    Nesse sentido, o coração rachado pode ser compreendido como a expressão de uma fantasia de fragilidade do vínculo. A fissura que atravessa o coração parece introduzir a possibilidade de que algo precioso possa se romper, afastar-se ou deixar de estar disponível da mesma forma. Os rostos entristecidos que o cercam sugerem uma atmosfera emocional marcada pela preocupação com aquilo que se ama e se deseja preservar. Nessa perspectiva, aproxima-se do que Melanie Klein descreve como ansiedade depressiva: o medo da perda, e a dolorosa percepção de que os vínculos podem ser afetados, transformados ou ameaçados. Existe, no desenho, algo da tentativa de dar forma a essa delicada experiência humana de amar aquilo que também se teme perder.

    Outro elemento relevante é a ausência de manifestações evidentes de ataque ao objeto. Diante da frustração relatada, Cecília não destrói a representação da mãe nem produz imagens de caráter agressivo. Ao contrário, simboliza a tristeza. Tal movimento insinua um funcionamento em que as tendências reparatórias parecem estar mais presentes que os impulsos destrutivos manifestos.

    Figura 2 (a menina no interior do coração).

    Desenho de uma menina no interior de um coração

    A fala de Cecília (“Quero cuidar de você porque você cuida de mim”) merece atenção especial por condensar, em poucas palavras, uma dinâmica afetiva complexa. Em Melanie Klein, os impulsos reparatórios surgem justamente quando a criança reconhece a importância do objeto amado e passa a temer, em nível fantasmático, que esse objeto possa ter sido ferido, danificado ou empobrecido. A reparação constitui uma tentativa de restaurar internamente o objeto bom e preservar sua continuidade.

    Pode-se levantar a hipótese de que Cecília esteja assumindo precocemente uma posição de responsabilidade pelo bem-estar materno. Em Inveja e Gratidão (1957), Klein descreve que a qualidade das relações objetais depende da estabilidade dos objetos bons internos. Quando a criança sente necessidade constante de proteger o objeto, torna-se importante investigar até que ponto ela experimenta o objeto como vulnerável ou ameaçado.

    O desejo de voltar a ser bebê também pode ser compreendido dentro desse contexto. A regressão pode ser vista como uma busca por restabelecer uma relação mais primitiva com o objeto idealizado, na qual as necessidades de dependência encontram maior satisfação e menor exigência de separação. Em termos psíquicos, parece haver um anseio por retornar a um estado em que a proximidade com o objeto amado seja vivida de forma mais plena e segura, antes que as experiências de ausência, frustração e diferenciação se imponham com maior intensidade. Nessa perspectiva, o desejo de ser bebê pode representar uma tentativa de reencontrar uma condição de acolhimento, proteção e continuidade afetiva. Trata-se de um movimento que aponta para a importância do vínculo com o objeto primário e para a necessidade de preservar internamente a experiência de ser cuidado e amado.

    Figura 3 (o coração dividido em duas partes).

    Desenho de um coração dividido em duas partes com mãe e filha

    No terceiro desenho, a divisão do coração em duas áreas distintas parece introduzir uma mudança importante em relação às produções anteriores. Embora mãe e filha permaneçam contidas dentro do mesmo coração, já não ocupam exatamente o mesmo espaço. Considerando o contexto relatado por Cecília, essa separação parece relacionada à vivência de uma distância afetiva produzida pela recusa materna de seu gesto de cuidado.

    A imagem sugere que o vínculo permanece preservado, mas percorrido por uma experiência de tristeza e desencontro. Em termos kleinianos, pode-se pensar que a recusa do objeto amado mobiliza fantasias de enfraquecimento da ligação, despertando preocupação e sofrimento. A manutenção de ambas dentro do mesmo coração indica que o amor permanece investido, mas agora acompanhado pela dolorosa percepção de que o objeto não responde sempre da maneira esperada ou desejada.

    A ausência da rachadura nesse desenho é particularmente significativa. A separação aparece representada, mas não acompanhada de sinais evidentes de destruição ou rompimento do vínculo. Embora exista uma distância entre mãe e filha, o coração permanece íntegro, preservando a ideia de ligação afetiva entre ambas. Diferentemente do desenho anterior, no qual a tristeza parecia associada ao temor de um comprometimento da relação, aqui a separação surge inscrita dentro de um mesmo campo de pertencimento. Isso sugere que a experiência de frustração pôde receber alguma elaboração simbólica, sem que o objeto amado fosse inteiramente perdido ou transformado em um objeto mau. A manutenção da unidade do coração indica que o investimento afetivo permanece preservado, mesmo diante do desencontro entre o desejo da criança de cuidar e a recusa materna em ocupar esse lugar. Há, portanto, uma representação de distância que não equivale à perda do objeto amado. A frustração se faz presente, mas o vínculo permanece preservado como referência afetiva fundamental.

    Como hipótese clínica geral, o material sugere uma criança com intenso investimento afetivo no objeto materno, marcada por forte preocupação com a preservação desse vínculo, predominância de ansiedades depressivas e importante mobilização de mecanismos reparatórios. Mais do que sinais de hostilidade, observa-se uma preocupação constante em manter o objeto amado íntegro e disponível, tema que ocupa lugar central na teoria kleiniana da posição depressiva. Essa formulação encontra respaldo especialmente em A Psicanálise de Crianças (1932), Amor, Culpa e Reparação (1937) e Inveja e Gratidão (1957).

    A compreensão desse material pode ser ampliada pelas contribuições de Susan Isaacs (1948), que descreve a fantasia inconsciente como atividade permanente da vida mental. Nessa perspectiva, os desenhos não representam apenas acontecimentos externos, mas a forma como a criança organiza internamente suas relações com os objetos amados e temidos. O que aparece no papel não deve ser entendido como um relato da realidade, mas como uma expressão simbólica das fantasias que estruturam sua experiência emocional.

    Hanna Segal (1957) acrescenta que a simbolização saudável surge quando a criança consegue diferenciar progressivamente o objeto real de suas fantasias sobre esse objeto. Os desenhos de Cecília parecem demonstrar justamente um esforço de simbolização. Em vez de atuar diretamente suas angústias por meio de ataques ou comportamentos destrutivos, ela as representa através de imagens que conservam o vínculo. Mesmo quando surge a rachadura no coração, o objeto permanece presente. Isso sugere uma capacidade simbólica relativamente preservada e uma tentativa de elaboração das ansiedades ligadas à separação e à perda.

    As contribuições de Herbert Rosenfeld também podem auxiliar na compreensão da intensa preocupação com o bem-estar materno. Rosenfeld observou que, em determinadas configurações emocionais, a criança pode investir grande quantidade de energia psíquica na preservação dos objetos internos, assumindo uma responsabilidade excessiva por sua integridade. A fala de Cecília sobre querer cuidar da mãe pode ser pensada não apenas como expressão de amor, mas também como uma tentativa de garantir que o objeto amado permaneça seguro, protegido e disponível internamente.

    Dessa forma, o conjunto do material parece apontar para uma criança cuja vida emocional está fortemente organizada em torno da manutenção do vínculo com a mãe. Predominam sinais de preocupação, reparação, culpa e preservação do objeto amado, aspectos que Melanie Klein descreveu como característicos da posição depressiva. O tema central não parece ser a agressividade dirigida ao objeto, mas a preocupação com sua integridade e permanência. Ao longo das produções, observa-se uma constante tentativa de proteger, cuidar e manter próximo aquilo que é vivido como fonte de amor e segurança. As experiências de tristeza e frustração não surgem associadas à rejeição do objeto, mas ao temor de que algo no vínculo possa ser enfraquecido, comprometido ou perdido.

    Nesse contexto, os gestos de cuidado assumem um valor que ultrapassa a simples demonstração de afeto, funcionando também como formas de preservar a relação e reafirmar sua continuidade. As imagens sugerem uma intensa sensibilidade às oscilações do vínculo, como se pequenas mudanças na disponibilidade do objeto fossem suficientes para mobilizar preocupações significativas. Ao mesmo tempo, chama atenção o fato de que, mesmo diante dessas experiências de desencontro, o objeto amado permanece investido positivamente. A mãe não aparece como alguém a ser atacado ou afastado, mas como alguém cuja presença precisa ser mantida e protegida. Assim, o material parece revelar um mundo interno no qual o amor está profundamente articulado ao cuidado, à preocupação com o outro e ao desejo de preservar os laços afetivos diante das inevitáveis experiências de frustração e separação que acompanham o desenvolvimento emocional.

    Referências

    KLEIN, M. A Psicanálise de Crianças. Rio de Janeiro: Imago, 1997.

    KLEIN, M. Amor, Culpa e Reparação. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

    KLEIN, M. Inveja e Gratidão e Outros Trabalhos. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

    ISAACS, S. A Natureza e a Função da Fantasia. In: Klein et al. Os Progressos da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1982.

    SEGAL, H. Notas sobre a Formação de Símbolos. In: Introdução à Obra de Melanie Klein. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

    ROSENFELD, H. Estados Psicóticos. Rio de Janeiro: Zahar, 1968.

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